terça-feira, 8 de dezembro de 2009

dois pontos



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vende-se um copo de sangue ralo. do talo de veia. de um dia de vaia e cuspe. vende-se um abre aspas. a coisa casta e crua. a poesia no espirro do mundo. minha noite com cheiro de rua. vende-se uma íris: a quem queira ser como eu vejo. dor e desejo do mesmo tamanho. moinhos de desespero. o gosto sincero da minha boca. o rouco da voz no esporro do grito. vende-se o infinito que não existe. o trago triste a que me recolho. no canto da boca a fissura. o inchaço da alma no olho. vende-se a filha que nunca tive. o entrave da garganta. a pergunta que não respondi. os domingos de culinária. a oratória dos anos perdidos. vende-se libido à flor do poro. os acordes que me escoram na solidão. minha piada serpentina. sem ter nada, vende-se tudo. sem ter tino, vende-se rima. e  à quem for comprar, cuidado: a poesia é pequena o bastante para entrar. ainda que corpo esteja fechado.



Mário Liz

9 comentários:

Sour Girl disse...

vende se o fraco da pobreza em frasco
vende se toda a amargura,a falta,a morte sobrevivida de um alguém que perdura pelas ruas...pela "nua e casta" realidade!
cara eu não consigo palavras para elogiar a essencia das coisas que vc joga em forma de palavras...
mto bom isso

Simples Assim... disse...

Dois pontos me remetem a tanta coisa. Enumeração: lista, fila. Exposição: esternação, ênfase. Exemplificação: amostra, concretização. Conversação: fala, grito, indagação. Mas dois pontos me remetem especialmente à abertura. Seja do corpo, pra que jorre sangue quente. Seja da alma, pra que soem os acordes que o escoram na solidão. Dois pontos. Vários pontos. Mários prontos. Mários inacabados. Contra-pontos? Dois pontos. Pontos de vista.

Falando em pontos de vista, concordo plenamente com o que vc escreveu sobre sexo e amor. Em geral, quando falo sobre isso, ouço que tenho uma visão banal do sexo. Muito pelo contrário, não acho que sexo precise ser justificado, respaldado por amor ou algum outro título que o torne louvável. Sexo pode ou não encontrar-se com o amor, mas eles caminham paralelamente. Ali, na hora que as roupas caem e os corpos se fundem o que há é instinto, concretização de uma necessidade física de comunhão, junção, sobrevivência. E posso estar absolutamente enganada, mas ver o sexo assim não é uma forma de banalizá-lo, muito pelo contrário. O meu sexo não precisa de subterfúgios, legitimações, explicações.

Explicação. Acho interessante quando alguém consegue explicar uma coisa que não é palpável. Um sentimento, hábito, necessidade. Lendo seu último comentário, me peguei sorrindo e pensando em como algumas coisas são perceptíveis a olhos nus. Despidos. Vc acertou em cheio. Ando escrevendo poemas por uma "exaustão lírica". Os contos estavam me proporcionando um mergulho interior muito instigante e eu, que gosto de ser estimulada, estava indo cada vez mais fundo, achando graça em me perder, me encontrar. Afogar, morrer, renascer, voltar. Só que alguns pensamentos levam a outros, que levam a outros e de repente me vi cansada do turbilhão. Continuo achando que é lá que eu me encontro mais inteira, mas é preciso respirar, ver o céu, sentir o sol batendo no rosto, tomar fôlego... Minha poesia. Ainda que, às vezes, soe à drama, pra mim é sempre dia de céu aberto.

P.S.: Perguntei sobre a origem daquele texto que postou como comentário porque faço uma coletânea de comentários que, ao meu ver, são verdadeiros posts e pretendo publicá-los em breve. Mas a ideia e que sejam palavras surgidas a partir de um post meu.

Ah, já ia esquecendo. Nem precisa se desculpar, ando também numa correria louca. Sinto falta quando vc demora, mas fique à vontade pra ir e vir quando quiser. Aliás, só tem graça se for desse jeito.

Bjs.

Andréa disse...

poema com cara de música urbana
aquela q a gente encontra na rua e bebe no gargalo.
muito boa mesmo.
tente musicar

Thai disse...

"a poesia é pequena o bastante para entrar. ainda que corpo esteja fechado." E não tem como não deixar entrar...Meus parabéns mais uma vez Poeta, sempre me surpreendendo e cada post novo! Adorei mesmo!

Mário Liz disse...

eu fico feliz em compartilhar ... e é isso mesmo que eu penso de toda a parafernalha de criar, postar, mostrar, seduzir ...

a troca com vcs, leitores, é a sedução que toda alma procura.

essas impressões que de latentes passam a latejantes, se refletem na minha escrita.

e é certo que há nas linhas deste meu espaço virtual, um pouco de cada um de vcs, desabrochados em mim.

muito obrigado mesmo ...

Malvina e Equipe: disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Renata de Aragão Lopes disse...

"vende-se uma íris:
a quem queira ser como eu vejo."

Que trecho FABULOSO!
É o que fazemos
a cada verso, não?
Cedemos a nossa íris
para que os outros
vejam o mundo
através de nossos olhos...

Se é que isso acontece.
Parece que a íris
de cada um
é tão poderosa,
que filtra os nossos dizeres
e os enxerga
à sua maneira.

Lindo texto, Mário!

Um beijo,
doce de lira

Barbara disse...

Você deu a poesia.
Não vendeu porque o que sai não tem preço não.
Tá dada.

Martinha disse...

"Acordes que me escoram na solidão"
Estou me vendo nestes acordes
Sem palavras para o amigo POETA sempre
Bjus

Quem sou eu

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Pouso Alegre, Minas Gerais -, Brazil
Redator Publicitário e Planejamento Estratégico da Cartoon Publicidade, graduado em Publicidade e Propaganda pela UNIVAS. Bacharel em Direito, graduado pela Faculdade de Direito do Sul de Minas. Roteirista do projeto multimídia E-URBANO1 e E-URBANO2, pela UNIVAS E UNICAMP. Ganhador do concurso nacional de redação de 2006 (MEC E FOLHA DIRIGIDA-RJ), onde superou mais de 37.000 concorrentes. Ganhador do Concurso de Redação da UFSCAR, em 2006. Colaborador da Revista Reuni. Tem publicações na revista científica RUA (UNICAMP) e no LIVRO DIGITAL DE 2011 (UNICAMP).