quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

capricho


desde os tempos mais remotos (dinossauros, Adão e Eva)... que eu odeio Física. E odeio sem precedentes ...

mas com uma coisa eu tenho que concordar: existe energia até em um grão de poeira!







havia um grão de areia...
que parecia pequeno.
mas quis a vida -
num desses caprichos que ela me faz...
tirá-lo do chão.
e nas barbas de um mundo tão grande
por que raios ele tinha de se encontrar
logo com o meu
olho
?


(mário liz)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

(já?)neiro.



amigos leitores,

eu não costumo colocar "off" em minhas postagens. Acho que em toda história do meiomarmeiorio devo tê-lo feito umas duas vezes. Mas é que esta, em especial, merece uma colocação: a questão da "prostituta em seu lapso de santa". Agradeço à leitora e escritora Danielle, por criar o conto que em seu blog subdivide-se em: Uma dose de Humanidade e Lágrimas de Sangue, porque minha inquietação se fez a partir dele.

Quem quiser conferir a pérola, acesse: http://purasimpressoes.blogspot.com/ 

vale a pena.

um forte abraço e tenham um ótimo 2010.





um ano novo é como um filho que nasce. então há todo aquele cuidado: cortar o cordão, alimentá-lo, limpar a merda. e muito embora o tempo não pare, o ano pode morrer. e parece que em mim ele nasceu meio morto. aí chegam as pessoas e dizem: olha pro’s seus problemas, poeta... eles são tão pequenos. mas é que cada coração tem um tamanho. e cada corpo uma força. e eu sinto minha sombra um tanto mais arcada. sei lá se isso é cruz ou se é credo. o que sei é que não há segredo: minhas pernas doem. minhas costas doem. e às vezes bate uma vontade estranha de parar. não morrer, parar. é algo mais covarde que me doar à morte. e eu também não poderia me dar a esse luxo. não por mim, é claro. há gente que me ama (andando por aí). almejando mais tempo ao meu lado. e sinceramente... não sei me expressar quanto a isso. eu sei que é bom. e o que me dói mais é não achar tão bom assim. na verdade eu me sinto como uma prostituta que se faz de santa e horas mais tarde, volta ao metier. porque será assim quando eu terminar essa letra. ela sairá de mim em um parto de sangue e luz. mas o passo seguinte será o entrave: eu de cara com a vida e sem claridade. sem sangue. sem parto. só cuspe e úteros secos.




(mário liz)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

saliva




saliva



(mário liz)


ela serve o chá. e eu penso se adoço ou amargo boca. ela cobre meus pés. e eu ajeito a touca. cubro as orelhas frente ao ar de julho. escolho meu pijama. sim, o meu velho pijama azul. ela finge que me olha. eu arrumo as calças e ligo a tevê. o canal perturba. mas eu finjo que gosto e ela finge que lê. se consola na fé inabalável. depois se faz de esfinge e me devora por fora. e eu não a decifro por dentro. amarga repetição. mesmo assim, não entendo. ela quer sempre mais e pede sempre tão menos. eu penso em gritar pois nunca ecoei seus terrenos. ela sorri e me mata com um beijo na testa. eu me testo se choro ou abandono a valsa na festa. eu não danço. e ela conduz. eu mais denso. ela de olhos crus. o arroz na panela-de-ferro. soltinho. ela em seu ritual me prepara. eu, o mesmo riso e a mesma cara. ela encera a estante e eu vejo a saúde do carro. ela me engraxa o sapato e fulmina um escarro. e o círculo impera. ela serve o chá. outra vez ela quer chá. eu quero quimera. eu penso que é já. o fim de uma era

:

eu jogo as xícaras e ela se abisma de espanto. eu grito e me corto e ela evoca o seu santo. eu saio descalço e jogo a touca no lixo da casa. ela fala e me abala e o frio se esvai em brasa. ela olha o pijama que agora ao chão não me toca. eu vasto e desnudo esmurro a parede enquanto minh’alma se choca. ela com sede e espasmo parece engolir o seu choro. depois ela tosse e pranteia o seu desaforo. por fim, o imenso silêncio me toma. e ela quieta, também em coma. aí eu me lembro da saliva que era alimento. e ela, espumosa, se verte em lamentos. eu cego-insano sigo e me apego naquela boca de espuma. ela chora e as lágrimas se dão à saliva, uma a uma. então meu corpo se acende e uma fera me rasga a espinha. e ela salgada de choro e de cuspe me olha e se mostra querendo ser minha. e o círculo se quebra. ela serve o vinho e o seu corpo é a taça. eu bebo e me farto e me dou à língua devassa. ela grita e contorce e dá colo à minha fera de olhos famintos. eu nela ando, corro e ecôo: agora em todos recintos.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

dois pontos



:




vende-se um copo de sangue ralo. do talo de veia. de um dia de vaia e cuspe. vende-se um abre aspas. a coisa casta e crua. a poesia no espirro do mundo. minha noite com cheiro de rua. vende-se uma íris: a quem queira ser como eu vejo. dor e desejo do mesmo tamanho. moinhos de desespero. o gosto sincero da minha boca. o rouco da voz no esporro do grito. vende-se o infinito que não existe. o trago triste a que me recolho. no canto da boca a fissura. o inchaço da alma no olho. vende-se a filha que nunca tive. o entrave da garganta. a pergunta que não respondi. os domingos de culinária. a oratória dos anos perdidos. vende-se libido à flor do poro. os acordes que me escoram na solidão. minha piada serpentina. sem ter nada, vende-se tudo. sem ter tino, vende-se rima. e  à quem for comprar, cuidado: a poesia é pequena o bastante para entrar. ainda que corpo esteja fechado.



Mário Liz

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

meio mar




meio mar



(mário liz)



em meio ao mar: ser mais febril e meio. no meio, amar: almar-me além do meio. no estalo da carne sem esteio. no estorvo da dor - eu me contraio. meus comigos de para-raio. tendões à flor da pele em cheio. chuva no céu que caio. eu me dissipo. eu, meu discípulo. e me nego três vezes antes do galo cantar. meio mar me dano, me aceno, me enveneno. queimo, aciono, enceno. faço aziar um copo de água e Eno. engulo as chaves da prisão... me condeno. culpado por sentir. por chorar. meio mar a melar. marmelo de sal. os dentes rangem a sós. no céu da boca, desfeitura de nós. voz da garganta. grita que corre. voa que canta. abismada voz. a mão na queimadura do verso. no abscesso da alma. calma, meu filho ... calma. o rio há de chegar pra molhar. e secar esse trauma.

sábado, 21 de novembro de 2009

meio rio




meio rio


mário liz



sou uma centopéia com um cento de olhos

e outro cento de asas.

sento às margens do rio,

nos aposentos do pensamento

com cem olhos a pensar:

meu inferno corpulento

são as ranhuras do vento

quando há alma em mar.

quando há mar em minh’alma

mesmo o rio não se acalma

mas tua voz pequena me diz

em poema:

- calma, menino....

hoje não é dia de

mar.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Momento


Momento



(mário liz)




quando o dia cai e a noite brota.

quando o broto salta e a lua vem.

quando o flerte triste n'alma encosta.

quando a poesia toma e tem.

quando o corpo aflito emana.

quando a luz irrompe a pele aquém.

quando Eu de tudo e Eu de todos.

quando Eu de Mim e mais ninguém.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Segmentação

Segmentação


mário liz


cerveja clara. preta. vermelha. café forte. café fraco. com açúcar. com adoçante. com cafeína. descafeinado. leite gordo. leite magro. vida curta. longa vida. leite em pó. pão de trigo. pão-de-batata. pão-de-ló. manteiga. margarina. queijo branco. amarelo. fresco. mofado. requeijão de minas. requeijão do norte. com sorte escolho o que comer ainda hoje. e haja escolha. haicai. poemeto. soneto. poema livre. poema preso. prosa poética. canções de rua. choro. samba. bossa. samba-rock. rock’n’roll. progressivo. punk. metal. blues. jazz. fusion. erudito. tudo à sete notas. ou à uma chave: carro sedan. ret. sem versível. conversível. conversas em comando de voz. celulares. tevêlulares. computadores em todos os lares. pc. notebook. laptop. top models. modelos fotográficas. michês. garotos de programa. prostitutas. acompanhantes. fórmula 1. fórmula 3. fórmulas em bulas. pílulas. comprimidos. xaropes. seringas. drágeas. drogas. fumáveis. cheiráveis. sintéticas. patéticas. adoráveis. heterossexuais. homossexuais. transexuais. pansexuais. xiitas. sunitas. cristãos. budistas. judeus. nazistas. narcisistas. cabisbaixos. endêmicos. anêmicos. hipoglicêmicos. diabéticos. dias crentes. dias céticos. condomínios. favelas. casas. chalés. apartamentos. coberturas. sorvetes. sacolés. ambulantes. braçais. tecnólogos. acadêmicos... no traço cênico que o mundo os faz. os corpos, os tatos se ajuntam. e a vida os explode, sem mais.

Quem sou eu

Minha foto
Pouso Alegre, Minas Gerais -, Brazil
Redator Publicitário e Planejamento Estratégico da Cartoon Publicidade, graduado em Publicidade e Propaganda pela UNIVAS. Bacharel em Direito, graduado pela Faculdade de Direito do Sul de Minas. Roteirista do projeto multimídia E-URBANO1 e E-URBANO2, pela UNIVAS E UNICAMP. Ganhador do concurso nacional de redação de 2006 (MEC E FOLHA DIRIGIDA-RJ), onde superou mais de 37.000 concorrentes. Ganhador do Concurso de Redação da UFSCAR, em 2006. Colaborador da Revista Reuni. Tem publicações na revista científica RUA (UNICAMP) e no LIVRO DIGITAL DE 2011 (UNICAMP).